Ata do Copom traz argumentos polêmicos, diz Ferman, da Parcitas

Ata do Copom traz argumentos polêmicos, diz Ferman, da Parcitas

Valor Econômico, por Alex Ribeiro

11 de fevereiro de 2020

O economista Marcelo Ferman, da Parcitas Investimentos, diz que o acelerado deslocamento do alvo da política monetária de 2020 para 2021 está gerando confusão em participantes do mercado financeiro sobre quais são os reais objetivos do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. 

Ele também considera polêmicos os argumentos de membros do colegiado preocupados com uma aceleração da inflação mais forte que o previsto. Essa visão, acredita, baseia-se em “conjecturas” sobre o nível de ociosidade da economia e a força da transmissão da política monetária, sem uma sustentação empírica. 

“Considero contraproducente o Copom dar a entender que abandonou a meta de inflação deste ano já em fevereiro”, afirma Ferman. Segundo ele, houve uma ruptura na cadência adotada no passado, quando a linguagem mudava de forma incremental, deslocando aos poucos o foco da política monetária de um ano para o outro. No passado, apenas em meados do ano o alvo se deslocava para o ano seguinte. 

O atalho tomado pelo Copom entre as metas de 2020 e de 2021, argumenta Ferman, leva a desconfianças sobre quais seriam os reais objetivos da política monetária. Pela meta de 2020, haveria espaço para cortar juros, ao contrário de 2021. 

“Tem gente que diz que o Copom encontrou uma justificativa para não baixar os juros porque está preocupado com o câmbio, outros dizem que ele está desconfortável com a inclinação da curva de juros”, sustenta. “Mas, se as preocupações do Copom fossem essas, não estaríamos em um sistema de metas de inflação.” 

Para sustentar seu argumento, Ferman inverte o cenário, supondo que a inflação esteja correndo acima da meta e o BC estivesse subindo os juros. “Imagina se, nessas condições, o Banco Central dissesse que não iria subir os juros, passando por cima de um choque negativo de proteínas animais, porque a projeção de inflação para o ano seguinte está na meta”, argumenta. “Já vimos esse filme no Brasil antes e não deu muito certo.” 

Ele diz que, na mensagem do Copom, causa desconforto também a avaliação de alguns de seus membros, baseada aparentemente em conjecturas, de que houve uma destruição da capacidade produtiva e que, portanto, o nível de ociosidade da economia é menor do que se supõe por suas medidas mais tradicionais. 

“Não são apresentadas evidências empíricas disso, em lugar nenhum”, afirma ele. “A realidade é que os economistas têm sido consistentemente surpreendidos por inflações mais baixas, ao longo do tempo. Não há evidência no passado de que a ociosidade foi superestimada.” 

Outra visão do Copom não testada, afirma dele, é a do aumento da potência da política monetária devido a mudanças no mercado de crédito. A virada da política econômica, argumentou, ocorreu a partir de 2016, e o BNDES tem restringido seus empréstimos há um bom tempo, desde 2017. 

“É verdade que, mais recentemente, houve um desenvolvimento mais forte do mercado de capitais, mas é uma coisa que já constava das apresentações do Copom de anos atrás”, diz Ferman. “Não é um argumento novo. Não foi apresentado nenhum teste na ata do Copom e, se fizesse um teste com os poucos dados disponíveis desde 2017, veríamos que os dados refutam a tese do menor hiato do produto e da maior potência da política monetária.”

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